Quatrocentos anos das Missões Jesuíticas Guarani: uma história para cantar
Artur Barcelos
Celebrar os quatrocentos anos das Missões Jesuíticas Guarani é muito mais do que recordar um episódio do período colonial. É reconhecer uma das experiências históricas mais originais da América do Sul, construída ao longo de quase dois séculos por milhares de homens e mulheres guarani em diálogo com missionários da Companhia de Jesus. Mais do que uma comemoração do passado, trata-se de reconhecer uma história que continua viva na cultura, na paisagem, na música, na memória e, sobretudo, no próprio povo Guarani.
A história das Missões não começa com os jesuítas.
Muito antes da chegada dos europeus, os Guarani já habitavam uma vasta região da América do Sul. Descendentes de populações originárias da Amazônia, ao longo de aproximadamente três mil anos ocuparam extensas áreas do atual Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai. Adaptaram-se às florestas tropicais e subtropicais, desenvolveram uma horticultura diversificada, dominaram a produção de cerâmica, navegaram pelos grandes rios e construíram uma rica tradição espiritual baseada na palavra, no canto e na vida comunitária.
Foi esse povo que os missionários encontraram quando iniciaram seu trabalho de evangelização no início do século XVII.
A primeira redução jesuítico-guarani foi fundada em 1610, na região do Guairá. Em 1626, o padre Roque González de Santa Cruz fundou San Nicolás del Piratiní, a primeira Redução no Tape, atual território do Rio Grande do Sul. Estes primeiros anos foram de contatos, encontros e desencontros dos Guarani com os missionários. Ao longo dez anos os Guarani chegaram a fundar 18 Reduções*. Porém, dois desafios tiveram que ser enfrentados. Primeiro, a resistência de muitos Guarani, que não aceitavam mudar seu ñandereko (o modo de ser tradicional) para ir viver nas Reduções. Assim, no Tape quatro padres foram mortos. Roque González de Santa Cruz, Afonso Rodriguez e Juan del Castillo, em 1628, e Cristobal de Mendoza, em 1635. Um xamã Guarani se destacou nessa época, o Ñeçu, que vivia no monte Inhacurutum, hoje pertencente ao munícipio gaúcho de Roque Gonzales. Foi ele quem tramou e ordenou a morte dos três padres em 1628. Era sua forma de dizer não ao cristianismo em suas terras. Mesmo com estas mortes, outros jesuítas seguiram evangelizando no Tape, vivendo nas Reduções com os Guarani. O outro problema eram os Bandeirantes de São Vicente e São Paulo. Em suas expedições aos “sertões”, os luso-brasieliros de São Paulo, levados por centenas de tupis do litoral, atacaram as Reduções do Guairá, do Itatin e do Tape, entre 1620 e 1640. No Guairá os Guarani acompanharam o Padre Antonio Ruiz de Montoya, que liderou a retirada dos que estavam em treze Reduções. Eles foram para a área entre os rios Paraná e Paraguai, considerada mais segura. No Tape, os jesuítas também convenceram os Guarani a se retirar para a área entre os rios Paraná e Uruguai. Assim, as 18 Reduções deixaram de existir. Mas os Guarani que não viviam nelas continuaram no Tape. E os das Reduções continuaram indo ao Tape para buscar o gado que o Padre Mendoza havia introduzido nos campos do Sul em 1635. E para buscar erva-mate nos ervais nativos.
Esses povos não eram simples aldeamentos religiosos.
Eram Pueblos de Indios, comunidades organizadas segundo as leis da Monarquia Hispânica, onde os Guarani continuavam sendo a ampla maioria da população e desempenhavam papel decisivo na construção de seu próprio cotidiano. Cultivavam a terra, administravam rebanhos, produziam alimentos, construíam igrejas, fabricavam instrumentos musicais, esculpiam imagens e participavam da administração local por meio dos cabildos e lideranças indígenas.
É justamente aí que reside a importância dos quatrocentos anos das Missões.
Durante muito tempo, essa história foi contada principalmente como a obra dos jesuítas. Hoje compreendemos que ela precisa ser vista de maneira mais ampla. As Missões existiram porque encontraram entre os Guarani uma sociedade capaz de adaptar-se, incorporar novos conhecimentos e construir uma experiência original de convivência entre diferentes tradições culturais.
Sem os Guarani não haveria Missões.
Sua agricultura sustentou populações numerosas. Sua organização social favoreceu a formação das comunidades. Seu conhecimento da floresta permitiu explorar os recursos naturais de forma sustentável. Sua capacidade artística deu forma ao barroco missioneiro. Sua tradição musical encontrou novos caminhos nas igrejas e orquestras das reduções. Sua espiritualidade dialogou com o cristianismo sem perder completamente suas raízes.
Os Trinta Povos Missioneiros representam, por isso, uma experiência histórica única.
Distribuídos pelo território dos atuais Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil, formaram uma extensa rede de comunidades interligadas por rios e caminhos terrestres. Compartilhavam conhecimentos, produziam alimentos, mantinham intensa circulação de pessoas e desenvolveram uma vida urbana rara para a América colonial. Em seu conjunto, constituíram uma das maiores concentrações populacionais indígenas organizadas do continente.
Dentro dessa rede encontram-se os Sete Povos das Missões, fundados na margem oriental do rio Uruguai entre o final do século XVII e o início do XVIII. Hoje localizados no Rio Grande do Sul, eles representam apenas uma parte da história missioneira, mas tornaram-se especialmente conhecidos porque protagonizaram alguns dos acontecimentos mais marcantes do período colonial, como a Guerra Guaranítica e a resistência liderada por Sepé Tiaraju diante da transferência de seus territórios determinada pelo Tratado de Madri, em 1750.
Os Sete Povos, portanto, não constituem uma história separada.
São parte de um processo muito maior, iniciado décadas antes e compartilhado por toda a região missioneira.
Outro dos grandes legados das Missões encontra-se na arte, na música e na espiritualidade.
As igrejas, esculturas e oficinas missioneiras revelam o encontro entre técnicas europeias e o extraordinário talento dos artesãos guarani. O chamado barroco missioneiro não pertence exclusivamente à tradição europeia nem à indígena: nasceu do diálogo entre ambas.
O mesmo pode ser dito da música.
Os Guarani já possuíam uma profunda tradição musical antes da chegada dos jesuítas. Nas reduções, essa herança encontrou a música barroca europeia, dando origem a coros, orquestras e compositores que impressionaram viajantes de seu tempo e deixaram um patrimônio que ainda hoje é executado em concertos e festivais internacionais.
Também a espiritualidade seguiu esse caminho de encontros.
A evangelização introduziu o cristianismo, mas encontrou uma sociedade que possuía sua própria cosmologia, seus cantos, seus rituais e seus conhecimentos transmitidos pelos payé. O resultado foi uma experiência religiosa singular, profundamente cristã, mas vivida por comunidades indígenas que reinterpretaram muitos de seus elementos segundo sua própria sensibilidade cultural.
As Missões, entretanto, não foram apenas um tempo de prosperidade.
Elas conheceram guerras, epidemias, deslocamentos e conflitos. Enfrentaram os ataques dos bandeirantes, reorganizaram-se em novos territórios, resistiram à Guerra Guaranítica.
Essa última deixou uma marca na história das Missões.
Em 1750 Espanha e Portugal celebraram um Tratado que visava corrigir a velha divisão de seus territórios coloniais que havia sido estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas de 1494. O novo grande acordo se dava em um outro contexto. No século XVIII as formas de tomar medições de latitudes e longitudes haviam melhorado. Durante anos, cartógrafos e cosmógrafos, orientados por diversos informantes e relatos, trabalharam na preparação dos mapas que serviriam de base para a negociação. Um dos pontos de tensão entre as duas coroas era a presença dos portugueses no Rio da Prata através da Colônia do Sacramento, que havia sido fundada em 1680. A solução encontrada foi a troca de territórios. A Espanha ofereceu os núcleos urbanos das sete Reduções que ficavam na Banda Oriental do rio Uruguai e parte de suas terras em troca da Colônia do Sacramento. Essa permuta foi negociada sem a consulta aos jesuítas ou aos Guarani. Quando os demarcadores chegaram para colocar os marcos da nova fronteira encontraram a resistência dos Guarani. A revolta durou três anos, entre 1753 e 1756. Os Guarani forma derrotados na Batalha de Caiboaté, que ocorreu em 10 de fevereiro de 1756, três dias após a morte de Sepé Tiaraju. O fim da revolta provocou uma grande decepção para os Guarani e perda da confiança nos jesuítas e nas autoridades coloniais.
O Tratado de Madri foi anulado em 1761. Houve uma tentativa de retomar a vida social e econômica das Reduções, mas em 1767 os jesuítas foram expulsos da América.
Começava ali uma nova etapa para os Povoados dos Guarani. Durante muito tempo acreditou-se que a saída da Companhia de Jesus marcou o fim das Missões. Hoje sabemos que isso não corresponde à realidade.
Os jesuítas partiram.
Os Guarani permaneceram.
As reduções continuaram existindo como Pueblos de Indios durante décadas, adaptando-se às mudanças políticas da época até que as guerras de independência e a formação dos novos Estados nacionais provocassem a dispersão de muitas dessas comunidades. Ainda assim, sua cultura permaneceu viva.
É justamente por isso que o legado missioneiro ultrapassa as fronteiras do Brasil, da Argentina e do Paraguai.
As Missões nunca pertenceram a um único país.
Quando foram fundadas, essas fronteiras ainda não existiam. Os povos missioneiros ocupavam um território compartilhado pelos Guarani, conectado por rios, caminhos e relações culturais que atravessavam toda a bacia do Prata. Hoje, esse patrimônio pertence simultaneamente ao Brasil, à Argentina, ao Paraguai, à Bolívia, ao Uruguai e, acima de tudo, ao povo Guarani, cuja história continua muito além das fronteiras nacionais.
Esse legado também permanece na língua guarani, falada por milhões de pessoas; nas ruínas preservadas como Patrimônio Mundial; na música recuperada de antigos manuscritos; nas esculturas barrocas; na tradição da erva-mate; nas lendas da M'boi Guaçu, da M'boi Tata, dos sinos encantados e dos tesouros escondidos; e na literatura, na poesia e no cancioneiro regional que continuam recriando a memória das Missões.
Celebrar quatrocentos anos das Missões Jesuíticas Guarani significa reconhecer uma história feita de encontros entre culturas, de criação artística, de resistência e de permanência.
Para os compositores reunidos em O Sul Canta as Missões Jesuíticas Guarani, essa trajetória oferece um universo de temas, personagens, paisagens e sentimentos. Pode inspirar canções sobre os rios percorridos pelos Guarani, sobre as reduções e seus sinos, sobre a música barroca e o canto indígena, sobre Sepé Tiaraju e Roque González, sobre as ruínas e as florestas, sobre a Terra sem Mal e a esperança, sobre as lendas que cercam São Miguel ou sobre a memória que une povos separados por fronteiras, mas ligados por uma mesma história.
Mais do que recordar um passado distante, cantar as Missões é dar voz a uma história que continua presente. Uma história construída pelos Guarani, compartilhada com os jesuítas e legada a toda a América do Sul.
Porque, quatrocentos anos depois, as Missões continuam existindo onde sempre estiveram: na memória dos povos, na cultura e na música. E nenhuma linguagem é mais capaz de atravessar o tempo e as fronteiras do que a canção. É ela que, agora, é chamada a escrever um novo capítulo dessa história compartilhada.
Temas de inspiração para as composições
Dessa história viva nascem caminhos para a canção. A ancestralidade guarani, as paisagens, os encontros culturais, as resistências e o legado das Missões oferecem vozes, imagens e sentimentos para novas composições. Os temas a seguir são pontos de partida para a criação, que pode percorrer livremente um ou mais desses universos.
As obras concorrentes poderão abordar livremente aspectos relacionados aos 400 anos das Missões Jesuíticas Guarani, considerando sua dimensão histórica, cultural, artística e simbólica. Entre os temas que podem servir de inspiração destacam-se:
O povo Guarani
- A ancestralidade guarani.
- A longa caminhada desde a Amazônia.
- A vida nas aldeias antes das Missões.
- A família, a comunidade e o tuvicha.
- O payé e a espiritualidade guarani.
- A Terra sem Mal (Yvy Marã e'ỹ).
- A permanência dos Guarani até os dias atuais.
As Missões Jesuíticas Guarani
- Os 400 anos das Missões.
- A fundação das primeiras reduções.
- Os Trinta Povos Missioneiros.
- Os Sete Povos das Missões.
- Os Pueblos de Indios.
- A vida cotidiana nas reduções.
- A convivência entre Guarani e jesuítas.
Personagens históricos
- Roque González de Santa Cruz.
- Antônio Ruiz de Montoya.
- Sepé Tiaraju.
- Caciques e lideranças guarani.
- Artesãos, músicos, escultores e construtores indígenas.
- Mulheres guarani na experiência missioneira.
- Personagens anônimos da vida cotidiana das Missões.
Música, arte e espiritualidade
- O barroco missioneiro.
- Os coros e orquestras indígenas.
- Os sinos das Missões.
- Os instrumentos musicais.
- A escultura missioneira.
- A arquitetura das reduções.
- O encontro entre diferentes espiritualidades.
O território missioneiro
- Os rios Paraná, Uruguai e Paraguai.
- As florestas e os campos missioneiros.
- A erva-mate.
- A agricultura e o trabalho coletivo.
- Os caminhos missioneiros.
- A paisagem cultural das Missões.
Conflitos e resistências
- As bandeiras paulistas.
- A migração dos povos missioneiros.
- A Batalha de Mbororé.
- A Guerra Guaranítica.
- A defesa da terra.
- A expulsão dos jesuítas.
- A continuidade dos Pueblos de Indios.
Memória e legado
- As ruínas missioneiras.
- O patrimônio compartilhado entre Brasil, Argentina e Paraguai.
- A diáspora missioneira.
- A identidade missioneira.
- A herança cultural das Missões.
- Os quatrocentos anos das Missões Jesuíticas Guarani.
Mitos, lendas e imaginário missioneiro
- A M'boi Guaçu.
- A M'boi Tata.
- Os tesouros das Missões.
- Os sinos encantados.
- A Casa do M'Bororé.
- As ruínas como lugar de memória.
- A presença das Missões na literatura, na poesia e no cancioneiro regional.
As Missões hoje
- A preservação do patrimônio.
- As comunidades guarani contemporâneas.
- A integração cultural entre Brasil, Argentina e Paraguai.
- As Missões como Patrimônio da Humanidade.
- O legado missioneiro para as novas gerações.
A natureza missioneira
- A floresta como casa dos Guarani.
- Os rios como caminhos.
- O canto dos pássaros.
- O vento nos ervais.
- As árvores sagradas.
- A pedra das igrejas e a mata que a envolve.
- O fogo, a água, a terra e o céu na cosmologia guarani.
As canções poderão abordar livremente um ou mais desses temas, privilegiando abordagens que valorizem a dimensão humana, histórica, cultural e poética das Missões Jesuíticas Guarani, compreendidas como uma experiência construída pelo encontro entre povos e culturas, tendo o povo Guarani como protagonista fundamental dessa trajetória histórica.
